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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

VOCÊ CONSEGUE "LER" ESTRELAS?

Onde houver um gesto espontâneo, um olhar sincero, um porquê constrangedor, aí há liberdade e, quase sempre, uma criança! Não é por outra razão que o mundo adulto se esforça para transformar ambas - a liberdade e a criança,- em cúmplices de uma ordem autoritária e violenta que se configura a partir de seus pilares fundamentais: a família e a escola. Nelas, indubitavelmente, a criança é tratada como objeto de amor e cuidado, objeto, portanto, de investimentos afetivos e econômicos que um dia, por óbvio, serão cobrados. Há uma expectativa de que a criança seja um adulto de sucesso, entendido como alguém capaz de ocupar uma situação de vantagem na iníqua ordem social, política e econômica. Mas ai dela, se não puder ser compreendida, para ser controlada com o melhor dos açoites: o amor dos que a oprimem!
Isto é particularmente verdadeiro quando se trata de crianças com distúrbios de aprendizagem como a dislexia.
Neste filme indiano produzido por Amir Khan, nos estúdios de Bollywood, uma criança que sofre de dislexia é obrigada a também sofrer todos os tipos de humilhação, discriminação e dor que uma família e uma escola feitas para gente "normal" é capaz de impingir sobre um sujeito indefeso, o elo mais fraco numa cadeia de hierarquias e controles que não admite ser perturbada por esses corpos improdutivos que fazem  da educação  um investimento de risco.
Ishaan Awasthi (Darsheel Safary) já tem 9 anos e corre o risco de reprovar o ano letivo pela segunda vez, porque não consegue ler e este é um problema que nem a escola nem a família de Ishaan sabe como resolver, senão com as armas da disciplina.
Entretanto, onde caberia diagnóstico e tratamento, apoio e métodos de ensino adequados,  Ishaan só encontra  uma avaliação moral (nem científica e nem pedagógica) de seu comportamento, que denuncia o caráter doentio de uma escola e uma família normais.
A solução encontrada pelos adultos para tornar Ishaan uma criança educável nos moldes pretendidos foi interná-lo contra sua vontade numa instituição que se orgulha de poder "disciplinar até cavalos selvagens", o que faz a dislexia agravar-se com a exsurgência de fatores comórbidos causado pela tristeza profunda decorrente da ausência do irmão e da amada mamãe (tão impotente quanto ele).
A partir deste quadro, pode-se ver que o destino de Ishaan está traçado, afinal, que poderia uma criança contra um mundo adulto que não lhe entende a espontaneidade, a alegria e o talento natural para imaginar, criar e ser? A sociedade não pode tolerar Ishaan não só porque ele é inviável economicamente, mas também porque ela não sabe como lidar com ele. Ele não tem "autoridade semântica" diante de uma sociedade que não quer e não sabe redescrevê-lo!
Mas, há muitos "outros que perturbam o planejamento educacional", e por isso, Ishaan encontra um professor (personagem do próprio Amir) que não está interessado em dominar, mas em educar crianças, conduzindo-as a elas mesmas! Sendo um professor de artes, que aprendeu a diagnosticar crianças disléxicas, pelo fato de também ter sido uma delas, resolve resgatá-lo e ajudá-lo a brilhar novamente. Ishaan, pela mediação do professor, revela-se um talentoso desenhista e pintor.
COMO ESTRELAS NA TERRA - TODA CRIANÇA É ESPECIAL seria apenas um filme sobre educação especial ou inclusão, se não fosse um desses elementos aos quais o filósofo alemão Ernst Bloch se refere como expressões do princípio esperança, que move muitos de nós para o chamado de uma revolução silenciosa contra tudo que nos desumaniza e nos coisifica. Isso porque as coisas que não são sempre acabam reduzindo a nada as que são, como as fracas destróem as fortes, o tempo todo.


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